quarta-feira, maio 22, 2024

Demógrafa aponta fatores de alta da população indígena em 30 anos

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Agência Brasil
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ROSA COLMAN: Vamos seguir muito mais diversos, firmes, mas muito mais diversos. Acho que também morando em cidades, muito seguindo nas terras indígenas, acredito que vamos conseguir demarcar mais terras para dar uma segurança territorial mínima. E acho que vão estar muito mais tecnológicos também. A gente observa muito a presença dos indígenas, principalmente os jovens, dominando essas tecnologias também, né. É bom, vamos continuar existindo, né? 

SOBE SOM 🎶

ALEX RODRIGUES: A única demógrafa indígena brasileira é otimista. Rosa Colman aponta que a alta taxa de natalidade entre alguns povos, o aumento da autodeclaração e mudanças na coleta dos dados fez o número de brasileiros que se identificam como indígenas crescer quase seis vezes nos últimos 30 anos. 

ALEX: De acordo com o Censo Demográfico do IBGE, em 1991, quando a opção “indígena” apareceu pela primeira vez no levantamento feito a cada DEZ anos, eram pouco mais de 294 mil pessoas. Em 2022, a população indígena chegou a quase Um milhão e 700 mil. 

ALEX: Eu sou Alex Rodrigues, repórter da Agência Brasil. Neste abril indígena, celebrando os 20 anos do Acampamento Terra Livre, que ocorre em Brasília até o dia 26, trazemos aqui para a Radioagência Nacional uma série de quatro entrevistas que fiz com intelectuais e lideranças indígenas. Neste primeiro episódio, você confere a trajetória e trabalho da professora da Faculdade Intercultural Indígena da Universidade da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul, Rosa Colman. 

SOBE SOM 🎶

ALEX: Para nós iniciarmos essa entrevista, eu gostaria de me referir diretamente ao censo. Desde o censo demográfico de 91, o número de pessoas que se declaram indígenas vem aumentando. Passou de pouco mais de 294 mil para cerca de 1 milhão e 700 mil indivíduos, o que hoje perfaz 0,8% da população brasileira. A seu ver, o que explica esse aumento e, principalmente, o que ele indica sobre o futuro dos povos indígenas? 

ROSA: Olha, primeiramente, a questão da melhora da metodologia, além do crescimento natural, né, isso é bem evidente, principalmente a parte da questão cartográfica, uma maior cobertura disso, né, ajudou a melhorar essa coleta, né.  

ALEX: E o que esses números indicam ou podem apontar sobre o futuro dos povos indígenas? 

ROSA: De cara, a gente já percebe, né, um aumento da presença indígena na cidade, então a gente vê também um futuro, não digo tão forte, mas que esse aumento na cidade tem sido importante. A gente consegue observar nos dados, né? Também a autoafirmação do pertencimento indígena, conforme o contexto também melhora, né? Conforme as pessoas vão se identificando melhor, né? Isso também aparece nos dados, né? Também a questão da mobilidade, que a gente já observa as pessoas indígenas em vários lugares, né? Tanto na aldeia como na cidade. Tem parente, tem uma rede, rede familiar que é forte. E esse aumento também nas áreas urbanas, principalmente para buscar estudo e trabalho, né. Como tem demandas mais variadas, né, as pessoas têm buscado também essas saídas na cidade, né. Aqui mesmo, na universidade que a gente está, tem uma forte presença na pós-graduação, por exemplo. A gente levantou recentemente em torno de 50, só da etinia Kaiowá e Guarani, que a gente tem mais proximidade, né, na pós-graduação, né? Então, isso já é um fenômeno. 

ALEX: 50 indivíduos só na pós-graduação? 

ROSA: É, na região aqui do Mato Grosso do Sul. Vários que já concluíram e grande parte que ainda está cursando. 

ALEX: Desculpe, isso na Federal da Grande Dourados? 

ROSA: Kaiowá e Guarani. Isso, tem gente que estudou em Campo Grande, na UCDB, na UFMS, aqui na UFGD, na UEM , com as cotas também, que tem aumentado muito a presença indígena tanto na graduação como na pós-graduação. Este número de 50 a gente fez um levantamento só na pós-graduação. Doutores ainda tem pouco, mas vários doutorandos. 

ALEX: A senhora arrisca uma explicação para esse segundo aspecto que a senhora mencionou, da autoafirmação? O que estaria motivando ou estimulando os indivíduos a se autodeclararem indígenas? 

ROSA: Acho que desde o censo de 2000, a gente já observou isso muito forte. Acho que a melhora nas políticas públicas, né, das cotas, por exemplo, isso tem motivado as pessoas a se encorajarem e se declararem, né. Observo bem particularmente que as pessoas têm, parece que é um incentivo, né? Que as pessoas vão acessar a política pública a partir do pertencimento étnico. Então isso, acho que motiva. Por outro lado, tem situações de medo também, né, principalmente para a questão de terra. Tem ameaças que as pessoas também se escondem, não querem se declarar. Mas acho que dependendo da situação de melhora nas políticas públicas voltadas à população indígena, as pessoas tendem a se declararem mais. 

ALEX: Professora, na sua tese de doutorado de 2015, a senhora já aponta que a alta taxa de crescimento populacional registrada entre os guaranis nos 70 anos anteriores é resultado de uma, abre aspas, política populacional étnica voltada para garantir a sobrevivência física e cultural, fecha aspas, deste povo, dos Guarani. A senhora pode, um, explicar que política é essa, e dois, por que a senhora, à época, entendia que os países não estavam, se é que estão agora ou se seguem não estando, preparados para responder adequadamente a esse aumento populacional. 

ROSA: As políticas são mais internas, né, esse crescimento físico e cultural. Principalmente as pessoas querem se reafirmarem como povo, como grupo, então eles também falam que é importante ter filho, temos que continuar existindo e resistindo. E como sobrevivência cultural tem também outra dificuldade que é a questão dos idosos. A taxa da população idosa é menor, né? Então, os conhecedores, os sabedores das práticas culturais, tradicionais, mas enfim, também tem diminuído. E isso também demonstra uma preocupação. Acho que com os dados isso deve melhorar, tem os dados de demanda para a escola, demanda para a saúde, mas em todos os lugares eles sempre pedem demanda específica, conforme a sua realidade como povo indígena, né. E isso é um desafio ainda para atender de forma adequada, né, tem muitos espaços ainda de muito preconceito, muita discriminação nos serviços de saúde, mesmo tendo o CESAI, que se entende como uma política específica, as pessoas ainda reclamam de muita falta de estrutura, muita falta de condições de um atendimento básico. 

ALEX: Quando a senhora menciona essa política populacional voltada para garantir a sobrevivência física e cultural dos Guarani, a senhora falou agora que a própria comunidade admite a importância de ter filhos. Isso está devidamente registrado? É objeto de estudo acadêmico? Enfim, existem elementos que comprovem que há entre os Guarani uma consciência da importância e um estímulo à gestação? 

ROSA: Pesquisa eu desconheço, é mais pelas nossas experiências assim. E como eles também reclamam quando tem um controle, né? Às vezes a política do Estado é de controle de natalidade. ‘Não, vocês estão crescendo muito, vocês ficam pobres, vocês não podem ter tantos filhos’, eles recebem essas acusações e reclamam. Eu pego muito, principalmente nos estudantes indígenas, que eu trabalho na FAIND, né, declarando, que é uma licenciatura indígena, que tem uma faixa de idade de jovens, né, a gente escuta bastante disso, né, eles não gostarem desse tipo de atitude, né, que o Estado, o próprio CESAI fala, ‘não, vocês têm que diminuir o número de filhos, tem que usar contraceptivos’, e às vezes até impõe. Tem relatos de pessoas que vão fazer cesariana e depois já voltam com a laqueadura, sem nem saber. Relatos que a gente escuta no cotidiano, por isso que eu digo essa impressão. 

ALEX: Dessa impressão não dá para extrapolar e dizer que do ponto de vista dos estudos populacionais seria possível afirmar ou apontar uma estratégia coletiva de manutenção e de preservação da população, de perpetuação do coletivo? 

ROSA: A gente fala a partir da observação de altas taxas de fecundidade ainda, comparando com a população não indígena. O último censo não apareceu, mas a tendência é, mesmo que dê uma pequena queda, a gente imagina que ainda é uma tendência, uma diferença de taxa de natalidade e fecundidade. 

ALEX: Pelos números mais recentes, os últimos levantamentos de taxa de fecundidade que a senhora se recorda, que a senhora tem conhecimento, há uma discrepância muito grande para o resto da sociedade brasileira? Há uma diferença nessas taxas? 

ROSA: Tem, tem diferença. Entre a população não indígena, um dos números que eu me lembro era menos de um já, em alguns lugares, e entre a população indígena, 1,4 a taxa de fecundidade, né, 1,5, principalmente em regiões mais rurais. 

ALEX: Voltando à primeira pergunta que eu fiz à senhora, essa diferença da taxa de fecundidade representa o que em termos futuros para a população indígena? É bom, vamos continuar existindo, né? Acho que esse é o principal aspecto, né? E acho que a melhora também nas condições de saúde, na alimentação, tudo isso, ajuda a visualizar, né, o futuro crescente da população indígena. Eu gostaria de abordar alguns aspectos da sua trajetória pessoal. A senhora já me antecipou, já confirmou que a senhora descende de indígenas e a senhora se autodeclara indígena também. É, onde que a senhora nasceu? A senhora viveu em comunidade? Ou os seus pais viviam já em aglomerado urbano? Enfim, gostaria que a senhora me contasse um pouco da sua trajetória. 

ROSA: A minha avó paterna, que é mais próxima de mim, é de um povo Aché, lá do Paraguai. E de outros, a gente sabe de relatos, mas pela história toda de discriminação e de não aceitação, as pessoas foram negando a identidade, né. Mas sempre já me conheci, né, já me lembro de uma vila que a gente morou, mas meu pai sempre me contou dos lugares onde ele andou, do pai dele, né, meu avô, sempre nesse modo de ser indígena, né, muito forte, mas com pouca identificação já, né. Então, no Sanga Puitão, um conglomerado pequenininho, a maioria de família paraguaia, mas muitas indígenas que também estão circulando nessa região. Então a gente sempre se identificou muito forte com essa etnia, principalmente Guarani. Também a partir da minha trajetória, minha atuação, pelo fato de falar em guarani, que eu fui convivendo mais, a gente foi fortalecendo essas raízes, né, essa identidade. 

ALEX: E a mãe da senhora? 

ROSA: Ela tem descendência indígena com negro. 

ALEX: Então a senhora tem ascendência indígena, né? Tanto sua mãe quanto seu pai são indígenas. 

ROSA: Sim, sim. 

ALEX: A senhora aprendeu o Guarani com eles ou aprendeu posteriormente? 

ROSA: É minha língua materna. Aprendi o português na escola, com sete anos.  

ALEX: Em casa, com seus pais, a senhora falava em guarani? 

ROSA: Eu, hoje, com a minha família, os irmãos, tudo Guarani.  

ALEX: E aí, filha de pai e mãe indígena, inicialmente falando Guarani, como é que a senhora percorre essa trajetória acadêmica? A senhora estudou em Ponta Porã e depois foi fazer universidade aí no Mato Grosso do Sul e chega à academia? Me resume um pouco da sua trajetória acadêmica. 

ROSA: Eu estudei até oitava série, nessa época, em Sanga Puitã, que tinha até o ensino fundamental. E comecei o ensino médio em Ponta Porã, com magistério. E depois, no segundo ano, eu, houve uma convivência com irmãs religiosas. Eu tenho uma trajetória na vida religiosa. Vim estudar em Dourados com as irmãs. E depois que eu saí, já tinha terminado a graduação. Fiquei na vida religiosa até terminar a graduação. E desde quando eu vim pra Dourados, na época, né, eu conheci um historiador que fazia entrevista, né, e precisava de transcrição dos trabalhos que ele fazia do guarani pro português, tradução e transcrição, né, das fitas gravadas. E eu fiz esse trabalho na época, e a gente sempre manteve um vínculo com esse professor, Antônio Brandt, né. Depois que eu já saí das irmãs, que eu já tinha terminado a graduação, fiquei um tempo só trabalhando, passei no concurso do Estado, pra ser professora, e ele que me incentivou a fazer o mestrado. Durante o mestrado também eu conheci a professora Marta Azevedo. A gente fez trabalho de pesquisa junto. Depois eu já, a convite dela, né, fui para fazer demografia na Unicamp, doutorado. 

ALEX: Professora Marta Azevedo é a ex-presidenta da FUNAI? 

ROSA: Isso, minha orientadora no doutorado. 

ALEX: Então, por estímulo dela que a senhora resolveu fazer o doutorado. 

ROSA: Isso, em demografia. 

ALEX: E por que que antes, na graduação, algum motivo particular, algum motivo especial para a senhora ter escolhido geografia? 

ROSA: Porque eu gostava da área de geografia. Na graduação já, tinha professores muito carismáticos nessa área que me motivaram a fazer esse curso. E quando eu estava morando, estudando, trabalhando nas irmãs, a possibilidade de estudar era só à noite. Algumas colegas até me sugeriram, faz letras, faz na área da linguagem, que vai te juntar, por causa do guarani, estudar língua, não sei o quê. Mas era durante o dia esse curso. Então, eu optei pelo curso de geografia, também porque era noturno. 

ALEX: Professora, antes de chegar o seu nome, eu entrei em contato com o IBGE, enfim, de consultar-se entre os profissionais responsáveis por fazer o censo, o recorte indígena, havia algum indígena para pensar o censo, e não há dentro do Instituto, ninguém que se autodeclare indígena. E entrei em contato com a ABEP, com a Associação Brasileira de Estudos Populacionais, que me indicou única e exclusivamente o nome da senhora. Até onde eu pesquisei, eu não consegui encontrar nenhum outro demógrafo ou especialista em estudos populacionais que se autodeclare indígena. A senhora tem conhecimento de alguém mais? 

ROSA: Não. Uma colega nossa, mas é do México. Ela que estudou com a gente na Unicamp, né, mas é do México. Mas na ADEP, no IPJ, também tem um grupo que tem acompanhado essas discussões do censo também, grupo de trabalho e que tem representação indígena, a APIB, tem colegas assim. 

ALEX: Mas não um demógrafo, né? 

ROSA: Não tem formação, não. 

ALEX: A senhora é o único demógrafo ou demógrafa autodeclarado indígena no Brasil, atuando no Brasil. A senhora acredita que seja isso mesmo? 

ROSA: Acho que sim. Não conheço outra pessoa. Tem um rapaz, da etnia Guarani também, que faz bastante trabalho em estatística, assim, até convidei ele para apresentar trabalho na ADESP agora. O nome dele é Gledson, mas a formação dele é na área de recursos naturais e gestão ambiental. Mas ele gosta dessa área de estatística. Ele fez modelagem para estudos na pandemia. É um rapaz bem interessante. A gente está fazendo bastante atividade juntos agora. Até foi na minha turma da faculdade falar e está fazendo doutorado agora, é doutorando. 

ALEX: Professora, eu estou insistindo nesse ponto porque por acaso e por uma feliz coincidência para mim, as pessoas que eu acabei escolhendo para entrevistar por outras razões estão se revelando primeiras em suas áreas. Primeira ministra indígena, primeira autora brasileira a publicar um livro, sendo indígena no Brasil. A senhora, primeira demógrafa, primeiro grupo de rap a cantar em Guarani. Isso me chamou muita atenção. No caso da senhora, ainda mais, porque eu não imaginava que não houvesse. A gente tem acompanhado nos últimos anos, como a senhora mesmo disse, o ingresso de cada vez um número maior de indígenas na universidade. Me surpreendeu o fato de ainda não ter demógrafos ou pessoas que estudem esse aspecto populacional, uma vez que isso é uma pauta tão cara para as comunidades indígenas. 

ROSA: Pois é. Eu acho que a distância dos cursos de demografia é mais nos centros, né? São Paulo, Minas, os mais expressivos, né? Tem no Rio, né, no próprio IBGE, né? Da Enfe, né? Mas agora tem Natal também, já tem uma faculdade lá que eles têm tido pós-graduação também na demografia, eu acho que futuramente já deve aparecer por aí. E Unicamp também tem tido vários estudantes indígenas na graduação. De repente, na pós-graduação também já deve aparecer, né? 

ALEX: Professora, eu tive a oportunidade algumas vezes ao seu estado para acompanhar a questão de conflitos fundiários, né? E, em particular, conflitos envolvendo comunidades indígenas. Estive em vários acampamentos à margem de rodovias. Enfim, tenho alguma noção de quão complexa e violenta é a situação no Estado. E presenciei, né? E ouvi muitos relatos do preconceito que existe contra a população indígena ainda no seu Estado. A senhora, ao longo dessa trajetória acadêmica, de sua construção, do seu currículo acadêmico, a senhora foi vítima de preconceitos? Enfim, como é que a senhora vivenciou sua infância, sua adolescência, a entrada no mundo adulto nesse estado? 

ROSA: É muito forte. A minha aparência, né, mesmo que eu queira negar, o meu cabelo, tudo é de indígena. Às vezes até a pessoa fala, ‘nossa, você não tem sotaque, você fala bem português’, meio como que eu tenho um prêmio, né? Algum prêmio. Mas é muito forte o preconceito. Na minha infância, era muito chamado de bugrinha e falava muito mal português. Por isso que eu acho que fiz o esforço de querer falar um pouquinho melhor o português. Mas tem muitos relatos, da minha família, vejo minhas irmãs mais velhas sofreram mais ainda, parece que em alguns períodos isso é pior ainda. Eu tive essas oportunidades de estudar, principalmente por causa das religiosas, né, mas muitos dos meus parentes, da minha geração, dos meus irmãos, não tiveram tanta oportunidade de estudar. Eu sou uma das primeiras, né, e depois sobrinhas que agora têm tido oportunidade de estudar, né. Mas a discriminação é muito forte, principalmente de pessoas que moram em acampamentos, muitos que vão pra cidade pra pedir, né, com crianças, outros vão recolher material reciclado pra vender, né, mexer nos lixos. Então tem bairros aqui em Dourados, pelo menos, que as pessoas têm alertas no grupo de WhatsApp de indígenas passando, de tão absurdo que é. Mas aqui é muito mais relacionado por causa da questão da terra. Os indígenas estão apresentando uma dança, uma reza, alguma coisa mais cultural, a gente observa que não tem muita discriminação. É como se fosse uma… Isso é possível, isso pode. Mas quando tem situação de reivindicação territorial, a gente já observa mais forte o preconceito nos meios de comunicação, de chamar de índio preguiçoso, porque índio quer terra. Isso tudo é bem pesado. 

ALEX: A senhora acha que, de alguma forma, esse preconceito vem diminuindo ou ele se mantém da mesma forma como na sua infância? 

ROSA: Conforme a situação, né, em que as pessoas têm uma apresentação mais cultural, não tem tanto. Mas quando é relacionada à questão de terra, é muito mais forte. A presença nas escolas, nas universidades também, isso tem diminuído. Acho que isso ajuda a diminuir. Estão rompendo barreiras, né? 

ALEX: A senhora vivenciou algum episódio em que a senhora tenha se sentido violentada pelo conteúdo passado na escola? Algum momento em que a senhora tenha ouvido algo a respeito das comunidades indígenas, povos indígenas, que a senhora, a partir do que a senhora conversava com seu pai, com sua mãe, da sua própria experiência de vida junto às comunidades, a senhora sabia que aquilo não correspondia à realidade? Enfim, algo que tenha lhe ofendido? 

ROSA: É, principalmente os conteúdos relacionados a indígena é do passado, né? Foram nossos antepassados, que não existe mais, isso ofende. E eu tive uma experiência que eu coloquei uma palavra, uma questão linguística, né? Coisa contrária, na aula de português, o de doente, eu coloquei em vez de são, eu coloquei sano, né? Porque a gente usa o empréstimo também do espanhol, né? E a professora considerou errado. Eu lembro disso como uma bem triste da minha alfabetização. Mas esses conteúdos, assim, principalmente de considerar do passado, isso ofende. 

ALEX: Tem algo em particular que a senhora lembra, assim, algo que tenha lhe chocado muito, uma informação relativa a esse passado que a senhora tenha, isso não é, isso não corresponde à realidade? 

ROSA: Os textos de material didático, agora já melhorou, eu acho, acompanhei pelo material do meu filho, que já melhorou as informações que traz nos livros, mas lembro dessa ideia nos livros de material didático. 

Sobe som 🎶  

 



Fonte: Fonte: Agência Brasil

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